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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Um doce de e-mail....

Após vários meses sem dar notícias, venho deixar um e-mail que foi recentemente enviado para mim e que me tocou particularmente.



"Olá Educadora

De vez em quando dou um saltinho ao seu blog para ver as novidades. Desde já, felicito-a pelo seu trabalho e quero dizer-lhe que a respeito imenso pelo que faz pelas suas crianças. Nota-se bem que ama a sua profissão.
Sou auxiliar de acção educativa (agora chamam-me Assistente Operacional), num jardim de infância público (...).
Li o seu post acerca das auxiliares e concordo que por vezes, existem algumas que, pela experiência que adquiriram ao longo dos anos, se acham mais importantes e "sabedoras" do que as suas educadoras mais novas.
No entanto, e falo pela minha experiência e de outras colegas, na maioria dos casos são as assistentes operacionais (auxiliares e animadoras) que fazem "andar" os jardins de infância públicos. São elas que mais se importam com as crianças e que mais tempo passam com elas.
Vou contar-lhe como é um dia normal no jardim onde trabalho:
Sou eu que abro o jardim às 8.30h.  e recebo a essa hora 6 crianças. Até às 9 horas vão chegando outras. As educadoras entram no Jardim às 9 da manhã, altura em que entram a grande maioria das 50 crianças que lá temos. Junto-as todas para o acolhimento na sala a que chamamos de "sala do prolongamento". Enquanto canto com elas, as senhoras educadoras vestem a bata no escritório e aproveitam para colocar a conversa em dia, enquanto que eu tenho controlar as cerca de 50 crianças que se amontoam numa manta. Por volta das 9.20, as educadoras chegam a essa sala, sentam-se e continuam a sua conversa até por volta das 9.30, 9.40...
Nessa altura, e porque já é impossível ouvirem-se uma à outra de tanto grito e cambalhota da criançada, resolvem ir para as suas salas. Cantam os bons-dias e as crianças colocam as presenças. No jardim onde trabalho, existe apenas uma auxiliar para as duas salas, pelo que tenho de andar sempre de um lado para o outro.
Por volta das 10.15, as educadoras fazem o comboio para que as crianças possam ir ao wc lavar as mãos, e em seguida levo-os para o refeitório para o lanche matinal.
Escusado será dizer que quem ajuda os meninos sou eu! As senhoras aproveitam  para se encostarem à parede e conversam mais um bocadinho.
Ás 10.30, chegam a auxiliar de cozinha e a animadora e começam a ajudar no lanche e a limpar as mesas.
Por volta das 10.40, eu e a animadora vamos para o recreio com os meninos (que é enorme e requer uma supervisão atenta). A auxiliar de cozinha começa a  preparar o refeitório para o almoço, enquanto que as educadoras vão fazer a sua habitual pausa para o lanche.
Ás 11.40, as educadoras tocam a campainha e eu e a animadora levamos os meninos para a porta, cada uma de nós se ocupa de um grupo e levamo-los para as respectivas salas. Os meninos ficam na sala com as educadoras até às 12.00, a cantar umas canções ou a ouvir uma história. Às 12.00h, os meninos que almoçam no Jardim são levados para o refeitório com a animadora e os restantes, tenho de entregá-los aos pais para irem a casa almoçar. É também hora das educadoras saírem para o seu almoço.
Vou para o refeitório ajudar no que for preciso, até à minha hora de sair, ou seja, às 12.30h.
Finalmente uma pausa!
Entro novamente ao serviço às 13.30h, hora a que supostamente também entrariam ao serviço as educadoras. É hora de a auxiliar de cozinha e animadora fazerem a sua pausa para almoço também. Regressam às 14.30h, para prepararem o lanche e o prolongamento de horário.
Fico só com crianças na manta da sala do prolongamento até às 14.00h, hora em que as educadoras se dignam a aparecer para levá-los para as respectivas salas. Nessa altura, as crianças fazem desenhos, vão para a casinha, brincam com plasticina, atiram com jogos ou legos ao ar, enquanto que as educadoras de vez em quando saem das salas e se encontram no escritório para ver mais um mail ou fazer uma chamada para a papelaria, etc,etc... Eu vou andando de sala em sala....
Chega por fim a hora desejada. As 15.30h! Hora de alguns meninos irem para o prolongamento e outros regressarem a casa. As educadoras chegam assim ao fim de um dia exaustivo em que se sentem "cansadíssimas e com dores de cabeça", aproveitando para dizer algo do género "Estou farta disto, e ainda nos cortam nos subsídios, uma pessoa trabalha, trabalha, para quê? Nem me incomodo muito....". E lá vão elas para suas casas.
Quanto a mim, ainda tenho de limpar duas salas completamente em pantanas até às 16.30h, hora em que finalmente vou embora, tratar da minha casa e dos meus filhos.
Para além da limpeza das duas salas, digo-lhe também que tenho à minha responsabilidade a limpeza do escritório, 3 despensas e todo o exterior do edificio.
Além disto, a decoração do jardim é feita por mim, os quadros de presença, do tempo, de aniversários, de comportamento,.... são feitos por mim. As prendas que os meninos levam para casa no Natal, dia do Pai, dia da Mãe, etc..., sou eu quem as idealiza e as faz.
Os filmes apresentados nas reuniões de pais no final de cada período, sou eu que os faço! As educadoras, pura e simplesmente, não querem saber!
Os mimos, as festinhas, o betadine nos dói-dóis, as pequenas façanhas, as suas aventuras e desventuras são partilhadas comigo e com as minhas colegas. A nós tratam-nos pelo nome, a elas tem de ser por professoras!
Educadoras que tratam as crianças segundo o seu nível social, que vão ver se o pai é director financeiro ou um simples trolha. Que fazem má cara porque sabem que os pais do "Joaquim" vivem do rendimento mínimo, mas trazem iogurtes de marca para comer!!! Que fazem constantemente observações acerca dos automóveis, da roupa,etc..., etc... Que tipo de educadoras são estas? É isto que queremos no nosso sistema de ensino?
Todas as educadoras que estão no privado querem ir para o público por isto mesmo! Não têm quem as supervisione. Fazem o que querem e lhes apetece!
Desculpe este meu desabafo, mas não pude evitá-lo! Já me queixei aos meus superiores, toda a gente sabe que é assim, mas o sistema está instituido, não há nada a fazer!

Como mãe e como ser humano, custa-me ver que aquelas crianças nada levam de útil para a sua vida futura. Custa-me vê-los 2 horas sentados numa manta, apertados numa só sala, a olharem para o televisor onde passa o "Ruca" ou o "Noddy", apenas porque é sexta-feira à tarde, as senhoras estão cansadas e não lhes apetece trabalhar!
A si, peço-lhe, não deixe morrer nunca esta sua paixão, mesmo que um dia vá para o público...
Peço-lhe que dê sempre o exemplo como Educadora que é! Exemplo de empenho, trabalho, dedicação... exemplo de partilha, de solidariedade, de companheirismo e ajuda.
Acima de tudo, exemplo de amor para com aqueles que um dia serão o futuro da nossa sociedade!
Obrigada por me ter "escutado"."

Obrigada querida leitora do blog... isto dá-nos força para continuarmos!

Beijinhos,
a Educadora!

10 comentários:

Andreia Vidal disse...

Olá! O meu nome é andreia e também sou educadora. Adorei este testemunho de uma auxiliar pois eu sempre tive essa mesma percepção nos muitos estágios que realizei, as auxiliares sempre tinham mais contacto, mais carinho e mais alegria com as crianças do que as educadoras. Para mim são sem dúvida um pilar das creches e jardins de infancia, mereciam mais respeito e reconhecimento! Espero nunca ser assim!
Aproveito para apresentar o meu blog: www.paiscriativos.blogspot.com
beijinho e bom trabalho

luh..... disse...

Sou professora ha 17 anos - 12 na pública e 5 na particular- atualmente estou em uma rede pública, e tudo o que o depoimento relatou EU faço sozinha em sala...fora os projetos fora do horario de trabalho, a formação permanente, e demais cursos...acredito que essa postura colocada pela colega não se restringue apenas ao ensino publico...e quanto a na ter supervisão de seus atos e atividades, so se for em sua cidade- que me parece que é de Portugal-a mim, resta acompanhamento bem proximo de gestores e quinzenalmente de supervisores...

Educadora! disse...

Obrigada Andreia pelo teu comentário. Eu também fiquei deliciada com o e-mail.

Beijinhos,
a Educadora!

Educadora! disse...

Olá luh.....

Este post refere-se a um e-mail que eu recebi de uma auxiliar de educação, à qual pedi autorização para divulgar.

No meu caso, eu trabalho 7h directas com as minhas crianças, fora as planificações, os registos, as avaliações, os planos individuais, os programas de acolhimento e toda uma outra infinidade de coisas que faço em casa. Cerca de 2 a 3h diárias que deviam pertencer ao meu lazer com a minha família... mas faço com gosto e paixão!

Realmente o Brasil e Portugal têm realidades muito diferentes... vamos aprender o melhor dos dois países.

Beijinhos e obrigada pelo comentário,
a Educadora!

Isabel disse...

Olá!
Eu sou educadora de infância e trabalho numa escola publica, mas na ilha da madeira onde as pré-escolas funcionam de uma forma muito diferente. Estou numa sala de 3/4 anos, somos três educadoras e uma assistente operacional. Duas educadoras recebem as crianças às 8h30m e estão com elas áté às 13h30 a desenvolver atividades pedagógicas e a ajudar nos lanches, almoço, higiene e hora do sono.Às 13h30m entra ao serviço a educadora da tarde que desenvolve as mesmas atividades na parte da tarde e termina o serviço às 18h30 quando entrega as ultimas crianças aos pais. O horário da auxiliar é das 9h às 13h30m e das 15h às 17h30e tem como tarefas a limpeza da sala, casa de banho, corredor, vigilância dos recreios e quando dá tempo dá uma ajudinha nos lanches, almoços e higiene. A auxiliar nunca fica sozinha com o grupo. Todo o trabalho de pesquisa, preparação de material, planificação, ... fica a cargo das educadoras e é assim que deve ser!
Sou continental e sempre trabalhei nesta ilha e o sistema de ensino funciona, sem duvida, muito melhor.

Estela disse...

Gostei muito do seu blog, estou criando um pra mim... http://rabiscosencantados.blogspot.com.br/
entra lá e me add... Obrigada... Beijos

ana mota disse...

olá, tb sou educadora, já com alguns anos de serviço tanto no ´publico como no privado. ao ler o posto que publicou parece-me que é conveniente salientar que nem todas as educadoras do ensino publico trabalham dessa forma. é verdade, já encontrei muitas assim, mas também já encontrei outras que lutam com amor à profissão, que travam cada batalha para ir mais além e remar sempre mais um bocadinho contra o marasmo em que se encontram algumas colegas.Conheço muitas colegas que trabalham no publico e que realmente se interessam pelos seus meninos e tb pelas suas famílias, que estão presentes e apoiam sempre que preciso toda a família. é verdade tb que por vezes as educadoras vão e vêm e as assistentes permanecem e são o "cartão de visita da casa". Mas também é igualmente verdadeiro que se por vezes encontramos educadoras que não o deveriam ser, também não é menos verdadeiro que por vezes encontramos assistente que jamais deveriam ter ao seu cuidado crianças. é de lamentar que a situação relatada seja realidade, mas bons e maus profissionais há em todo o lado e profissões, infelizmente. Nem sempre tudo é tão linear!

Cristina disse...

Olá! Também sou educadora, há 23 anos e alguns deles, no ensino solidário, embora agora esteja no público.
Já corri "Seca e Meca" ou seja, muitos km, por este país fora e já vi de tudo.
Se é verdade que há infelizmente muitas educadoras como descreve esta senhora, também não é menos verdade que há muitas que se sacrificam muito por amarem a sua profissão! Que "levam" os problemas das crianças e famílias para casa! Que se prejudicam, e muito, porque denunciam situações, que tantas vezes se voltam contra si próprias!
Não podemos de facto generalizar, de modo algum!
Mas deveremos sim continuar a lutar!
Eu tenho dito muitas vezes que a situação dos professores do nosso país, em parte está muito degradada, por causa de muitos dos próprios professores!
Mas eu peço-lhe que continue a divulgar a educação com a mestria com que o faz, pois é de educadoras como a "Educadora" que a EDUCAÇÃO necessita! Bem haja! e votos de um bom ano.
Se acaso estiver interessada o meu blogue é "criancasdepalmoemeio.blospt.com"... (obviamente que muito mais singelo que o seu)

Mãe Por Um Dia disse...


Resposta a ""Um doce de e-mail.... "

Sou educadora de infância, amo a profissão e conheço muito bem a realidade do privado e do estatal, pois estive 11 anos em IPSS (conheci várias no país)e estou há 12, no estatal (em vários agrupamentos). A realidade somos nós que a fazemos e tudo depende do profissional que somos.
Eu raramente trabalhei com auxiliar, quando trabalhei a auxiliar sempre foi um bom apoio e conhecia bem as suas funções. Sempre tive grupos com 25 crianças, por vezes 25 de três anos, onde elas sim, são autenticas carochinhas. Trabalham de forma cooperativa, onde os mais fortes apoiam os que têm mais dificuldade, auxiliam a educadora e em conjunto partilham a dinamica de uma sala de jardim de infância. Aprendem a gerir o tempo de trabalho e de atividades livres, propõem e realizam...
Eu para além do meu trabalho com as crianças, muitas vezes preparado previamente, faço reuniões, atas, mapas de leite, de pessoal, horários, gestão da CAF, compro os materiais ...Raramente chego a casa cedo, e em casa há sempre algo da escola para fazer, muito mais do que fazia quando trabalhava nas IPSS.
A história que essa senhora conta é lamentável pois não retrata a realidade do país, mas sim uma realidade que ela continua a alimentar, pois segundo diz, faz isso diariamente e vitimiza-se por fazê-lo, está a tempo de mudar.
Em relação ao email não percebo o porquê do título "Um doce de e-mail.... ". Será que é atribuido de forma irónica, ou a colega não conhece a realidade do país?!
Bom, parabéns pelo seu blog e pela partilha que faz.

Bem Haja!!

Maria Pereira

Educadora! disse...

É verdade que as realidades diferem entre as diversas zonas do nosso país, mas isto acontece. Não digo que todas as educadoras do público são assim, quem sou eu para generalizar, até porque conheço algumas e sei que se "matam" a trabalhar, assim como as do privado, que igualmente trazem toneladas de trabalho para casa diariamente.

Trata-se de um doce de e-mail, porque valorizaram o meu trabalho aqui no blog, a minha disponibilidade para ajudar e partilhar o pouco/muito que sei, apenas isso colega! Por conhecer bem a realidade do país, é que lhe posso dizer que temos de tudo, infelizmente. Por a Maria Pereira trabalhar árduamente não quer dizer que não existam colegas que não o façam, correcto?

Obrigada pelos vossos comentários!
=)

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